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Já quase em cima
da hora, aquelas crianças iam saltando de dormente em dormente
no leito abandonado da estrada de ferro que, em tempos idos, serviram
de guia para os comboios a caminho dos mais distantes rincões;
para a locomotiva a vapor que, aos berros, pedia passagem e anunciava
o avanço irreversível do progresso.
Hoje, pouco se consegue ver da via férrea. Encoberta pelo mato
alto, confunde-se com a paisagem e abriga, aqui e acolá, restos
esqueléticos do que um dia foi parte de um trem. Uma locomotiva,
um vagão ou um carro de passageiro, irreconhecíveis e abandonados
ao rigor da intempérie. Vendo-os ali, naquele estado, ninguém
arriscaria dizer que já contribuíram, e muito, para o desenvolvimento
e fartura da região.
À distância, Zé do Apito a tudo observa. Vê
a alegria daqueles garotos saltando de um lado para outro, por entre os
obstáculos, como se estivessem contando os passos e cercando o
tempo, impedindo sua passagem. E seu Zé se lembra de quando também
caminhara naquelas pegadas. E lamenta-se por não ter conseguido
cercar o tempo.
Enquanto a garotada se afasta o vozerio se perde no ar, misturando-se
aos pensamentos do Zé do Apito. Todo dia a cena se repete. Os meninos
passam por ali, alegres, falantes e despreocupados. Magricela, gordinho,
baixinho, briguento, banguela, neguinho e o branco aguado. Iguais apenas
no uniforme da escola, com suas calças azul-marinho desbotado,
camisa e meias branco-terra, sapatos pretos esfolados de tanto chutar
pedras e a pasta de couro com o material escolar, rodada no ar com displicência.
Acenando, cumprimentam os moradores do pátio e seguem em direção
à escola, a passos lentos de quem não quer chegar.
Hoje, mesmo com a idade já pesando, Zé do Apito continua
por ali. Ainda enverga o uniforme surrado de quando trabalhava na ferrovia.
Passa quase que o dia inteiro cuidando da conservação da
velha e depredada estação e dos pedaços da via permanente
ao seu redor.
Arranca ervas daninhas, varre, capina, recoloca pedras sob os trilhos,
movimenta e lubrifica as chaves de mudança de via, evitando que
emperrem. Aguarda, esperançosa e pacientemente, a passagem de um
trem. Olhos pregados no horizonte procurando avistar um fio de fumaça
que indique a aproximação da máquina a vapor. Ouvidos
abertos na expectativa do canto inconfundível do apito, avisando
de sua chegada à pequena estação.
Nas horas vagas, seu Zé aproveita para conversar. Já fez
bastante amigos por ali. Fica horas trocando idéias com os dormentes,
com as pedras e com os trilhos. Gosta de ouvi-los porque ainda se lembram
de tudo. Afinal, foram os primeiros a chegar naquelas paragens. Conversa
bastante, também, com os carros, vagões e locomotivas que
se consomem em ferrugem e quase sufocados pelo mato. Deles ouve muitas
histórias sobre os diferentes lugares por onde passaram. São
mais tristes. Falam com lágrimas nos olhos, com saudade de suas
viagens e cansados por estarem tanto tempo inertes. Mas Zé do Apito
tem esperanças e procura animá-los.
_ Pessoal, é preciso ter paciência. Logo tudo se ajeita e
vocês voltarão à circulação.
Eles acreditam, engolem seco, enxugam as lágrimas e voltam a fazer
planos.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São
Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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