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Essa é mais uma
crônica da série A farra do boi. Uma referência
ao tempo em que a boiada, descarregada no mangueirão próximo
à estação, atravessava toda extensão do Bairro
Portela, antes de chegar ao frigorífico. Para as crianças,
uma festa; para os adultos um tormento e para os políticos, principalmente
em época de campanha eleitoral, um prato cheio. Guardadas as devidas
proporções, era como a seca do Nordeste. De quatro em quatro
anos era lembrada. Nos palanques, os candidatos prometiam de tudo. Se
ganhassem, a primeira providência seria tirar a boiada do bairro.
Fariam qualquer coisa. Se preciso fosse, levariam a boiada inteira no
colo. Um boi por vez, é lógico. Da estação
até o matadouro. Mas uma coisa garantiam: pelas ruas do bairro,
levantando poeira, assustando pessoas ou fazendo lama, caso fossem eleitos,
a boiada não passaria mais.
Crianças, ficávamos apavorados só com a idéia
de que pudessem acabar com a farra do boi. Adultos, por sua vez, erguiam
as mãos aos céus. Acreditavam naquele salvador com roupa
de domingo, no alto do palanque. Palanque, aliás, montado em dia
que não havia descarregamento de bois.
E a cada quatro anos a ladainha se repetia. Chegava o dia da eleição.
O bairro em peso acreditava e votava naquele que prometera tirar os bois
de suas ruas. Eleito, as promessas eram esquecidas. A boiada continuava
dando seus espetáculos para a garotada. Os adultos continuavam
enfrentando muita lama e poeira. As donas-de-casa continuavam correndo
com seus filhos no colo e com as sacolas de feira, para fugir do boi desgarrado.
Mas continuavam acreditando.
Aliás, era uma época em que se acreditava muito. Acreditava-se
em Papai Noel, lobisomem, boitatá, mula-sem-cabeça, saci,
bruxa, fada e super-heróis. Crendices de crianças.
Os adultos não acreditavam em nada disso, mas nos deixavam em paz.
Acho, até, para que não fossem questionados em suas crenças.
Talvez não soubessem explicar porque tinham tanta fé nas
promessas eleitoreiras. Duvidar da palavra do seu candidato era briga
na certa.
E a vida continuava. O barrancão lotado para assistir o descarregamento
da boiada. Os adultos cobrindo seus calçados com sacos plásticos,
protegendo-os da lama. O político eleito sumia por algum tempo.
Para ser mais exato, sumia até as vésperas de novas eleições.
E começava tudo novamente.
Até que um dia a boiada sumiu do bairro. Com certeza alguém
levou a fama de benfeitor. Eu, cá comigo, acho que a farra do boi
foi vencida pelo tempo. Acabou porque tinha de acabar. Foi vencida pelo
cansaço. Acabou porque os políticos não conseguiram
mais impedir que acabasse.
Mas eu nunca arrisquei dizer isso a nenhum adulto. Tinha medo de ser castigado.
Medo de que me proibissem de acreditar em coisas mais simples. Com maior
chance de se tornar realidade. Como encontrar um lobisomem ou receber
a visita do Papai Noel, por exemplo. Não conseguia entender porque
os adultos insistiam em acreditar nos discursos de palanque. Juro que
tentei. Entre um político cumprir suas promessas e eu dar de cara
com uma mula-sem-cabeça passeando pelas ruas do bairro, acreditem,
eu apostava na mula.
Assim, a farra do boi sobreviveu por muito tempo, até o dia em
que resolveu parar. E, enquanto isso não acontecia, a mula-sem-cabeça
passeou alegre e sorridente pelas ruas do bairro, para quem quisesse ver.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São
Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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