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Geraldo Pereira
Estive com Moreira da Silva, o velho malandro, em seu apartamento,
no bairro do Catumbi, na Cidade Maravilhosa, poucos dias antes de sua
morte.
Tinha uma amizade pessoal muito grande pelo saudoso Moringueira da Silveira,
o criador e maior intérprete do samba de breque da nossa MPB.
Conheci Moreira da Silva na Festa da Mocidade no Recife, em 1945, boa
praça, bom garfo, getulista fanático, afirmava-me: "Como
Getúlio não houve nem haverá um outro. O baixinho
era da gente."
Lembro-me de que, há pouco mais de 5 anos, o procurei a fim de
pedir o seu apoio para a campanha que estávamos fazendo em defesa
dos Juízes Classistas. A campanha não tinha dinheiro. Eu
precisava de alguém de nome e bem conhecido no Brasil, a fim de
aparecer na TV desmentindo uma porção de mentiras que a
chamada grande imprensa estava propalando. A principal delas era que o
Juíz Classista se aposentava com 5 anos de atividade. Uma safadeza
sem tamanho, uma mentira deslavada que tomou conta do povo e dificultou
muito a nossa defesa, a nossa campanha, pois, enquanto desmarcarávamos
esses canalhas para um auditório de 200 pessoas, mais tarde, a
Globo e demais estações falavam exatamente o contrário
para milhões de pessoas. E a mentira deles nos venceu, com o apoio
da esquerda, do PT principalmente. Se bem que o PT nunca foi esquerda.
Esquerda, são alguns dos seus melhores membros.
Moreira se pôs à vontade para gravar, sem cobrar um centavo.
Mas, cadê dinheiro para investir? Procuramos todos os programas,
Jô e outros, tudo fechado para nós. A TV Cultura e a TV Educativa,
também não nos deram a menor oportunidade. Os donos da comunicação
nos metralhavam diariamente. Fizeram a cabeça dos parlamentares.
Os trabalhadores perderam os seus representantes na Justiça do
Trabalho. Era isso o que queria o FMI e o capitalismo interno e externo.
Eles trabalharam durantes anos e conseguiram fazer com que todas as forças
se juntassem contra os Juízes Classistas, desde os parlamentares
do PT - toda a bancada unanimemente - até os parlamentares do PC
do B, contrariando a orientação do velho e saudoso João
Amazonas, que em depoimento a mim prestado e gravado, condenou de maneira
enérgica aquela tentativa de golpe contra os trabalhadores. Ele,
Amazonas, que nos trabalhos da Constituinte de 1946, lutou como um gigante
para incorporar ao Poder Judiciário, as Juntas de Conciliação
e Julgamento, pedindo e lutando pela sua "disseminação
por todo o território nacional".
Sem dinheiro, sem poder usar um único canal de televisão
para debater, esclarecer a população o golpe miserável
que o capitalismo e o FMI estavam perpetrando contra os trabalhadores.
Perdemos a batalha. E esses canalhas ainda falam em liberdade de expressão,
em direito de possuir jornais, revistas, rádios, e televisão,
livres. Livres para eles. Livres para os patrões que podem pagar,
e pagar bem, as campanhas contra o povo e o País.
O povo não tem direito de expressão, nem liberdade para
usá-la, para levar ao debate os problemas da Pátria e os
seus próprios problemas.
Volto ao velho malando. Ele falava corretamente o idioma, a princípio
foi torcedor do América carioca, depois virou flamenguista doente.
"É que o América tinha 8 jogadores argentinos, e eu
sou brasileiro". Nacionalista, aos 98 anos de idade, Moreira da Silva
estava por dentro de tudo que se passava no País, e ainda trabalhava.
Menos de 6 meses do embarque de sua última viagem, convidou-me
para assistir o seu show no Teatro João Caetano, na Praça
Tiradentes. Caminhava com certa dificuldade. Os seus fãs não
o deixavam sossegado em seu camarote, enquanto aguardava a hora do início,
ele ia contando casos, ouvindo os admiradores, mais admiradoras, todas
queriam autógrafos, fotos com ele. No fundo eu sentia, que todas
queriam uma lembrança do grande Moreira que ia se despedindo da
vida. Acredito que ele também tinha essa sensação.
Moreira, agora se senta na cadeira de rodas. É dado o segundo sinal,
sinal que o show se dará início com o próximo. Junto
com a secretária vou empurrando a cadeira até o placo. No
terceiro sinal, abrem-se as cortinas, as palmas, o velho malandro ri.
Sempre com o seu inseparável chapéu, calça e camisa
de linho branco - alinhadíssimo - deixo o palco, vou em direção
à escada que dá acesso à platéia, ele me chama,
e me emociona, eu não esperava. De microfone em punho, declara:
"Esse é o Geraldo Pereira Segundo, o primeiro foi aquele negrinho,
grande sambista, que já se foi há muitos anos. Há
muitos anos reside na cidade dos pés juntos. Esse é jornalista,
meu velho amigo. O show de hoje eu dedico a ele". O povo ouvindo.
E ele com a voz de mandão: "Cadê as palmas gente?".
Cantou e encantou a todos nós, se empolgou, deixou a cadeira com
muito sacrifício, a secretária tentou ajudá-lo, ele
fez um sinal negativo com o polegar.
O velho malandro fez a ginga que o imortalizou. Foi aplaudidíssimo.
Vou ao seu encontro: "Moreira, você não podia fazer
a ginga, cara", respondeu-me: "Eu sou filho de Deus, tenho a
sua proteção".
Tinha mesmo!
Geraldo Pereira é jornalista e membro do Sindicato
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)
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