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Por mais de uma vez
eu falei do bar da escadaria em minhas crônicas. E com razão.
Ele sempre foi ponto de encontro de pessoas importantes. Não por
serem ricas, famosas ou ocuparem cargos de destaque na vida pública.
Há pessoas que não precisam de nada disso para se tornar
importantes. Nascem importantes e assim atravessam toda a vida. São
importantes para as pessoas com quem convivem. São importantes
para o lugar em que moram. São importantes em sua simplicidade.
Além disso, o bar da escadaria já foi palco de quase tudo.
Cantorias de moda de viola, batucada, torneio de truco e dominó,
ponto de largada para as corridas de fim de ano, partidas de bilhar e
encontro da turma do futebol. Enfim, uma referência. Lugar em que
os amigos se encontravam para algumas horas de bate-papo, regado a cachaça
e cerveja.
E ele sempre foi assim. Do jeito que é hoje. Parou no tempo, assistindo
a vida passar. Lembro-me dele desde que me entendo por gente e não
consigo imaginar a paisagem sem ele. Se tem uma construção
que, na minha opinião, merece ser considerado patrimônio
histórico do Portela, essa construção é, sem
dúvida, o bar da escadaria.
Hoje a vila mudou muito, cresceu. Tempos atrás, era apenas o bar
da escadaria rodeado por pouco mais de uma dezena de casas e de muitos
terrenos tomados pelo mato. Naquele tempo, tudo se concentrava em torno
dele. Ele era a venda de secos e molhados que servia a pequena população
do lugarejo.
Parada obrigatória para quem chegava do serviço. Um aperitivo,
um pouco de conversa com os amigos e uma mistura para acompanhar o jantar.
O barulho de suas pesadas portas de aço era o aviso de que a venda
estava sendo aberta logo de manhã ou fechada após a saída
do último freguês. Assim era o bar. O bar da escadaria.
Hoje, porém, quero dedicar algumas linhas para falar não
do bar da escadaria, mas da escadaria do bar. Isso mesmo. A escadaria
que parecia enorme aos olhos da criança e acanhada aos olhos do
adulto. A escadaria hoje deformada pelo tempo. A escadaria que em tempos
idos assistiu e suportou o vai-e-vem das pessoas. A escadaria que, teimosa
em continuar vivendo, oferece assento aos freqüentadores do bar.
A escadaria que ainda enfeita a paisagem da vila. A escadaria que, se
voz tivesse, gritaria para se fazer notar; para pedir a companhia daqueles
que passam apressados. E eu a vejo pelo menos uma vez por semana. E também
passo apressado. Correndo contra o relógio.
Vez ou outra parava alguns minutos para conversar com um amigo, freqüentador
assíduo da escadaria do bar. Parava para um dedo de prosa e curioso
pelas histórias que ele tinha para contar, mas que a falta de tempo
teimava em não deixar ouvir. Causos de quem conhecia tudo e um
pouco mais sobre a vila. E me despedia logo em seguida, prometendo, sempre,
que um dia qualquer encontraria tempo e anotaria tudo o que ele tinha
para me contar. A hora que você quiser, era a resposta.
Terça-feira agora, chegando na vila notei que a escadaria do bar
estava diferente. Estava faltando não sabia bem o quê. Até
que me disseram. Meu amigo havia nos deixado. Morreu de repente,
disseram.
E a escadaria do bar estava muito triste. Não era pra menos. Perdeu
um companheiro. Uma pessoa importante foi embora. O seu Sebastião
foi embora. Perdemos um grande contador de histórias. Mais que
isso, perdemos um grande amigo.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São
Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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