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As férias de
meio e fim de ano marcavam o encontro. E as crianças, logo no primeiro
dia, reuniam-se na chácara. Cabeção, Luizinho, Osmar,
Pedrinho, Zelão, Shirley, Sueli... De fora, apenas eu e meu irmão.
Depois de mais de uma hora de viagem, a Vila Piauí. Ponto final
do ônibus que saía do Mercado da Lapa. Ponto inicial de muita
diversão.
A luta livre; o pega-pega em meio aos pés de café; a patinete
na descida da calçada detrás da casa; a assombração
nos caminhos do pomar; o mapa do tesouro; a manga colhida no pé;
as brincadeiras na chuva; a sessão de desenhos na tv; a varanda,
com seus arcos de frente para a estrada do Moinho Velho. O cansaço
ao final do dia; o banho de banheira; o jantar; a cama.
O sol entra pela fresta da janela. Não há tempo a perder.
A vitamina de abacate, o café com leite e o lanche reforçado
dão a energia necessária para mais um dia de correria. Aliás,
garantem energia até a hora do almoço. E que almoço!
Na varanda de arcos, uma pausa para o sorvete. Buscado na sorveteria da
única avenida da vila e trazido em uma caneca. Tinha que ser consumido
rápido, antes que derretesse. Mais uma caminhada e mais sorvete.
Sorvetes de groselha. Davam de dez a zero nos sorvetes de hoje. Tudo bem,
podem dizer que estou exagerando. Mas que eram deliciosos, isso eu garanto.
E o Papai Noel? Impossível que ele viesse somente depois que as
crianças dormissem. Resolvemos conferir. Jogando dominó
para espantar o sono ou lavando o rosto com água fria. Revezando-se
no cochilo. Dessa vez ele não escapava. Mas escapou. O sono foi
mais forte. E, mais uma vez, o bom velhinho passou sem ser visto. Ele
era, sem dúvida, muito esperto.
Para descansar um pouco, nada melhor do que uma boa leitura. Os gibis
do Bolinha e da Luluzinha, empilhados no canto da sala de piso de taco
encerado, ofereciam farto material para o nosso entretenimento.
Pois bem, esse foi o assunto que tomou conta do bate-papo, dia desses,
numa tarde de sábado. A chácara, palco de todas essas brincadeiras
e aventuras, hoje não existe mais. Os cabelos das crianças
daquele tempo, hoje estão branqueados pela geada do tempo. Mas
as lembranças estão vivas, dando a impressão de que
tudo aconteceu ontem, há uma semana, no máximo.
Até o bolo de milho foi lembrado. De milho entre o verde e o maduro.
Do milho no ponto certo. Ralado para se juntar aos outros ingredientes.
Era o mais bonito e gostoso bolo de milho verde já visto e provado
na face da Terra e que só a tia Carmelina sabia fazer. E foi a
tia mesmo quem contou uma história envolvendo o tão famoso
bolo: um dia disse ela o Pedrinho entrou na cozinha,
como quem não quer nada, e me perguntou se eu podia lhe dar mais
um pedaço de bolo. Sabe tia, daquele bolo gostoso que a gente
comeu no lanche da tarde... bolo de farelo. Eu achei aquilo muito
engraçado. Vejam vocês, meu bolo de milho verde, feito com
tanto capricho, tinha, de repente, virado bolo de farelo!
E com essa história, que, aliás, eu não conhecia,
o sábado chegou ao fim. Voltamos para casa. Na mente uma confusão
de sabores. Manga, abacate, pão com manteiga, café com leite,
banho de banheira, varanda de arcos, Bolinha, Luluzinha, luta livre, sorvete
de groselha, pega-pega, assombração, Papai Noel, dominó,
bolo de farelo... e o gosto inconfundível de saudade.
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São
Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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