:: CONTRAPONTO
Getúlio Vargas: um resgate merecido

Geraldo Pereira

Neste mês de agosto, faz 51 anos da tragédia que chocou a Nação, com a morte do presidente Getúlio Vargas, ocorrida, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, em 14 de agosto de 1954. Lembro-me bem da luta heróica que ele travou, tendo contra si e o seu governo toda a chamada grande imprensa, com as suas estações de rádio, que também pertenciam aos seus inimigos. Inimigos que queriam vê-lo morto - e viram.
Os Diários Associados, na época, tinham mais poder de comunicação do que hoje tem a TV Globo. A revista O Cruzeiro, tirava mais de um milhão de exemplares semanalmente, e fazia a cabeça do povo brasileiro com as famosas reportagens assinadas por David Nasser, caluniando não só Getúlio Vargas, mas, principalmente, os seus familiares, inclusive, a primeira-dama Dona Darci Vargas.
Acompanhando os Diários Associados vinha o jornal O Globo, da família Marinho, além do Estado de S. Paulo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, e todos os grandes jornais, de todos os Estados. Getúlio só contava com o jornal A Última Hora, cuja direção estava a cargo do jornalista Samuel Wainer.
Carlos Lacerda, um brilhante jornalista, diretor do jornal A Tribuna de Imprensa, fazia a oposição mais cínica e irresponsável possível. Era uma pressão violentíssima, tudo financiado e bem financiado pelo imperialismo americano que não perdoava a ousadia de Getúlio, sempre vigilante e atento na intransigente defesa dos bens de sua Pátria e do seu povo.
Nunca alimentei a menor simpatia pelo ditador Getúlio Vargas, mas o tempo é o remédio de todos os males. Quando atingimos uma certa idade, ele nos faz rever os acontecimentos, os episódios pessoais ou não. Tornamo-nos proprietários de uma percepção mais ampla, de um poder de análise mais apurado.
Levei toda minha vida, bem mais de meio século, espinafrando Getúlio Vargas, o ditador. Escrevi muitos e muitos artigos, fiz centenas de intervenções em eventos os mais diversos, sempre mostrando a face criminosa de uma ditadura, que prendeu, espancou, torturou e matou.
Certa tarde, após o gostoso almoço em casa de Mestre Barbosa Lima Sobrinho, no bairro de Botafogo, na Cidade Maravilhosa, ele, com os seus 102 anos de dignidade, fixou-me, e, já com os olhos cansados pela idade e pela vigilância em defesa da nossa Pátria, declarou-me: "Sabe. Cada dia que se passa eu acordo mais getulista. Getúlio Vargas foi o único presidente que realmente defendeu o Brasil e olhou para o trabalhador."
Antes, o meu saudoso e sábio amigo David Capistrano Filho, havia me chamado a atenção nesse mesmo sentido.
Francisco Calasans Lacerda, fraterno companheiro - grande líder sindical e estudioso da Ciência do Direito - também cultua a memória de Getúlio.
O grande Oscar Niemeyer, companheiro querido, sempre que o assunto era Getúlio, falava-me com simpatia sobre o seu governo, realçando o trabalho de Gustavo Capanema à frente do Ministério de Educação e Cultura.
No ano passado, em Copacabana, na casa de outro mestre, o saudoso Celso Furtado - o filho mais ilustre que a Paraíba produziu -, uma década mais velho do que eu, depois de me ouvir por mais de 40 minutos, deu a sentença definitiva: "Geraldo, nossa geração foi educada para odiar Getúlio."
Há quinze dias, entrevistando no Rio de Janeiro essa outra figura admirável que é o ex-presidente do BNDES, o nosso querido Carlos Lessa, ele me falava da importância de Getúlio no desenvolvimento nacional.
Não faz muito, realizei, uma exposição, intitulada "Getúlio Vargas - Um Resgate Merecido", na cidade de Americana. Na sua abertura pronunciei uma palestra/debate, sobre a figura daquele saudoso presidente. Estou convicto de que ela serviu-me como uma auto-crítica pública. Ela registrou o encontro de um homem que se encontra na encosta da vida, sempre à procura da verdade. E no tocante a Getúlio Vargas, ele a encontrou e sente-se imensamente satisfeito, em poder falar dessa verdade, sem o intuíto de vendê-la a quem quer que seja.
Tanto em Americana, como em outras cidades, constatei, com imensa satisfação, a sede de saber dos seus munícipes. Bem que a nossa ilustre prefeita Dra. Ruth Banholzer poderia proporcionar aos cidadãos de Itapevi, neste mês de agosto, a oportunidade de resgatar a memória deste estadista, trazendo para a cidade a exposição "Getúlio Vargas - Um Resgate Merecido" - que consta de: 60 fotografias, no tamanho 30cmx60cm; 18 minutos de filmagem, focalizando o Presidente Getúlio Vargas, em diversas oportunidades; 30 minutos de depoimentos de diversas personalidades sobre o homenageado; 4 fotografias de documentos históricos, assinados por Getúlio e seus Ministros.
Como se vê é uma ampla exposição fotográfica, documental e oral, que muito incentivará cultura local.

Geraldo Pereira é jornalista e membro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)