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Geraldo Pereira
Sempre tive muita compreensão, não digo pena,
por todo ser humano que, de uma maneira ou de outra é vitima da
incompreensão e intolerância provocada por uma deficiência
(se é que se pode chamar de deficiência), uma pessoa gostar
de outra do mesmo sexo.
Menino, pude sentir a dor de uma mãe vendo o filho crescer, se
criar, sem amigos, pois todos se afastavam do pederasta para não
se parecer com ele. Lá no Recife da minha meninice, lá em
casa da minha avó, a recomendação era para não
se aproximar do garoto homossexual que pejorativamente chamávamos
frango.
Quantas e quantas vezes fui chamado a atenção por minha
avó e por meus tios, porque não os atendi e continuava a
tratar os garotos pederastas como eles deviam ser tratados como
garotos normais!
É que sem saber, o sentimento de solidariedade se apossava de mim
e pouco me interessava o que pensassem ao meu respeito ou com os freqüentes
chamados de atenção dos meus tios.
Esse comentário saudoso vem a propósito de uma matéria
publicada no jornal O Estado de S. Paulo, de 23/07/05, dando
uma notícia do primeiro casamento, da primeira união feminina
acontecida no nosso planeta e realizada na Espanha, em Molllet Del Vallés,
município da província de Barcelona, onde foi realizado
o casamento de Verônica e Tani.
O parlamento espanhol aprovou no último dia 30 de junho, a união
de pessoas do mesmo sexo. No dia 11, foi realizado na prefeitura de Três
Cantos, a quinze quilômetros ao norte de Madri, o primeiro casamento
entre dois homens, o espanhol Emilio Menédez e o médico
americano Carlos Baturio. Eles se conheceram há trinta anos, disseram
sim e foram declarados unidos no casamento, trocaram
alianças e se deram um abraço, entre os aplausos dos convidados.
Apesar dos protestos da Igreja Católica, o projeto foi aprovado
por 187 contra 147. A iniciativa foi do Partido Socialista da Espanha.
A Holanda, a Bélgica e o Canadá já aprovaram semelhante
projeto.
A felicidade do ser humano é o ideal de todas as pessoas solidárias,
que amam o seu próximo. A felicidade, no entanto, é pessoal
e intransferível. Há certos fatos, certos episódios,
certos acontecimentos e certas leis que fazem uns ficarem mais felizes
do que outros e eu confesso aos leitores desse Contra Ponto,
que me deixou muito feliz, os primeiros casamentos de pessoas do mesmo
sexo. Que Verônica e Tani, assim como Emílio e Carlos, sejam
felizes e que a felicidade deles possa tomar conta, invadir os corações
das pessoas que por um motivo ou por outro alimentam preconceitos que
não mais se justificam nos nossos dias e que para mim nunca se
justificaram.
Voltando ao Recife de minha infância e adolescência, nos papos
longos com os meus colegas de colégio, de bola de gude, de jogo
de meia (futebol), fazíamos uma senhora bola com as meias usadas
de nossas mães; nesses papos eu sempre combati, combate que hoje
setentão muito me orgulho de continuá-lo. Os cabelos brancos
de hoje me dizem que estava certo e que o mundo civilizado um dia reconheceria
o direito que todo o ser humano tanto almeja o direito de ser feliz!
Geraldo Pereira é jornalista e membro do Sindicato
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)
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