UM TEMPO QUALQUER

Vinha não me lembro muito bem de onde. Sorocaba, Itapetininga, Mairinque, São Roque, sei lá. Vinha, como costumávamos dizer, do interior. Catando gente aqui, ali e acolá. Sacolejando suas juntas de ferro e embalando cochilos.
No porta-malas ou bagageiro, descansavam a marmita, o agasalho para mais tarde, o fichário do estudante, a bolsa da madame. Isso mesmo! A bolsa da madame! Viajava o tempo todo no bagageiro, enquanto sua dona dormia tranqüilamente, sentada no banco de vinil cor de vinho, do trem japonês. Se valia a pena, deixava a cabeça cair distraidamente no ombro do cavalheiro ao lado, desculpando-se de vez em quando, só pra disfarçar. Desculpa prontamente aceita.
Sobravam lugares. Ainda não era o tempo do trem lotado. Da “sardinha em lata” do “caveirão” ou do “pau-de-arara”. Ainda não era o tempo em que senhoras e senhoritas tinham que fazer verdadeiros exercícios de contorcionista para escapar do assédio dos marmanjos que aproveitavam o balanço da composição. Escapar ou, então, conformar-se com a falta de espaço e de alternativa para fugir do inconveniente. Diga-se, a bem da verdade, se fosse conveniente fugir.
Estou falando de um tempo em que não havia assentos cinzas reservados para idosos, mulheres grávidas, deficientes físicos, mulheres com criança no colo, etc.. Porque não havia necessidade. Todos, exatamente todos os assentos de todo o trem, de todos os trens e de todos os horários estavam previamente reservados para aqueles que, nos tempos modernos, teriam apenas os assentos de cor diferenciada para que pudessem se sentar...e viajariam em pé.
Estou falando do tempo em que o menino entrava no trem em uma estação, colocava a marmita no bagageiro, para que seu pai a pegasse em uma outra estação longe dali. E nunca se ouviu dizer que algum pai tenha ficado sem almoço porque sua refeição desceu antes da hora, conduzida por mãos estranhas.
Não estou falando do tempo em que os vendedores ambulantes circulam entre os poucos espaços conquistados na marra, para oferecer desde pastilhas de menta até remédio para dor de dente. De quebra, periga que nossa carteira se simpatize com algum deles, deixe o calor confortável de nossos bolsos e o siga em sua trajetória.
Estou falando do tempo em que a criançada gostava de ficar na ponta da plataforma, vendo o ajudante de maquinista enfiar o braço no aro de metal que trazia presa a licença para seguir viagem. Nunca errava. E olha que fazia isso com o trem em movimento.
Não estou falando do tempo em que o corre-corre diário tirou o romantismo da viagem de trem. Opa! Tirou mais que isso. Tirou o trem que, do tempo sobre o qual não estou falando ou do tempo sobre o qual estou falando, não importa, era o romantismo “em pessoa”.
Estou falando do tempo em que o muro das Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo abafava o som metálico do trem, tornando-o diferente o suficiente para ser percebido por aqueles que estivessem dormindo. Um despertador original. Hora de acordar e preparar-se para descer. A estação Barra Funda estava próxima. Júlio Prestes, um pouco mais adiante.
Não estou falando do tempo em que as estradas de rodagem margeiam o leito ferroviário escoando a carga por um preço justo. Justo para os donos das frotas dos gigantescos caminhões que cobrem de fuligem o tapete outrora verde que enfeitava a paisagem.
Enfim, estou apenas falando de um tempo qualquer.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)