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Geraldo Pereira
O
cidadão do mundo, brasileiro de nascimento, Oscar Niemeyer, completou
neste mês de dezembro 98 anos de idade, 98 anos de uma existência
humana riquíssima de dignidade pessoal e coerência política.
Saúdo os 98 anos de Oscar com uma prounda satisfação
e orgulho. Orgulho de ser amigo de um ser humano generoso e simples como
ele.
Há pouco mais de 30 dias estive com Oscar em seu escritório
na cobertura do edifício Ipiranga, na avenida Atlântica,
em Copacabana. Foram três horas, tempo não suficiente para
atualizarmos as nossas memórias e relembrá-las com carinho
e saudade os velhos companheiros que de nós já se despediram
para sempre. Luís Carlos Prestes, Maurício Grabois, João
Amazonas, Jorge Amado, Astrogildo Pereira, Arruda Câmara. Relembramos
Darcy Ribeiro, Evandro Lins e Silva, Barbosa Lima Sobrinho, Nelson Werneck
Soldré, João Saldanha, Antônio Callado, Alceu Amoroso
Lima, Antônio Houaiss. Mas não ficamos só nesses luminares.
Entramos pela nossa MPB e falamos de Nelson Cavaquinho, Cartola, Pixinguinha,
Sílvio Caldas, Orlando Silva, Tom Jobim, Caimmy, Ari Barroso, Orestes
Barobsa. Poesia e poetas também se fizeram presentes. Bandeira,
Drummond, Castro Alves, Vinicius e Ferreira Gullar, o maior poeta do Brasil
há mais de três décadas.
No decurso dessas três horas, Oscar por algumas vezes convidou-me
para almoçar. Compromisso inadiáveis não me permitiram
aceitar. Sei que esses papos fazem Oscar feliz. Ele dá um passeio
gostoso pelo passado. Em um desses passeios, fizei os meus olhos nos seus
e vi cenas de filmes guardadas em sua memória serem repassadas
para mim, acompanhadas de uma profunda saudade, através de sua
voz meiga e amiga.
Lembrei-lhe a companheira de mais de 70 anos de convivência que
dele se despediu neste ano - Annita. Quando faço lembrar-lhe trecho
do seu livro "Curvas do Tempo": "É bom recordar
o tempo, o tempo do meu casamento com Annita, sempre generosa, a vida
toda a me acordar todos os dias para o trabalho, às vezes finjo
estar dormindo para não lhe tirar o prazer de me dizer em voz baixa
'Oscarzinho, são oito e meia'".
Expoente de sua categoria, a obra de Oscar se faz presente em todo o mundo.
Neste momento, ele trabalh projetos para a Alemanha (um imenso parque
aquático), um museu para a Espanha e uma praça gigantesca
na Itália, sem nos projetos para o nosso País, dentre os
quais, um que tem para o próprio Niemeyer um profundo e alto significado.
São os memoriais de Prestes, Getúlio, Jango e Brizola, que
ficarão às margnes do rio Guaíba, na cidade de Porto
Alegre, com figuras de 3 metros de cabeça. As margens do rio Guaíba
chamar-se-ão Avenida da Soberania.
Oscar continua o mesmo comunista de semrpe, acompanhando no dia-a-dia
as transformações políticas e tecnológicas.
E afirma: "Arquitetura não muda nada. O sujeito que está
na rua protestando para mim, ainda é mais útil do que o
meu trabalho". E continua: "O sujeito nasce assim, sentindo
que o mundo é perverso e que a gente tem que lutar para mudá-lo.
E a gente pensava que iria mudar o mundo. E continua pensando. Se não
formos nós, outros vão fazer. É natural, é
uma coisa mais justa".
Geraldo Pereira é jornalista e membro do Sindicato
dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)
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