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Da janela do ônibus,
via a multidão que se aglomerava na frente da igreja. Eram os preparativos
para a saída de uma procissão. Trânsito parado; os
andores sendo posicionados de forma a ocuparem seus lugares no cortejo.
Naqueles poucos minutos, lembrei-me das procissões de minha cidade.
À época, saíam todas da Igreja Matriz. Da Paróquia
de São Judas Tadeu.
Desci do ônibus. Queria ver de perto. Os coroinhas corriam de um
lado para outro. Alguns adultos gesticulavam, indicando o que deveria
ser feito. Pelas roupas que usavam, faziam parte de uma congregação.
Congregação Mariana, eu acho.
Aos poucos a procissão ia tomando forma. Aquele aglomerado transformava-se,
lentamente, em grupos organizados, em filas distintas. Era possível
ouvir pequenos ensaios, quase em sussurro, dos cânticos religiosos
que seriam entoados durante o trajeto pelas ruas do bairro.
Meus olhos percorreram a procissão de ponta a ponta. Na frente,
o santo, que acredito fosse o padroeiro. O padre, ladeado pelos coroinhas
e, em seguida, outros andores formavam a procissão.
Instintivamente procurei pela banda. Pela corporação musical.
Eu aprendi, desde criança, que procissão tem banda. Essa,
para minha surpresa, não tinha. E não podia ter, mesmo.
Onde eu estava com a cabeça? A Corporação Musical
Mércia era única. Só existiu na minha cidade. Nas
minhas procissões.
E o cortejo teve seu início. Devagarzinho. Os homens responsáveis
pelo trânsito parando os veículos. As pessoas, com seus passos
lentos, ora rezando, ora cantando os hinos em louvor aos santos.
Mentalmente, me transportei para um dos itinerários que a procissão
percorria em minha cidade. Descia a rua da Igreja e entrava à esquerda,
na praça Carlos de Castro, passando em frente ao cinema do Pereira,
pelas lojas do seu Armindo e pelo bazar do seu Bobs. Entrava na Avenida
Brasil e, novamente à esquerda, uma pequena subida, indo terminar
na porta da Igreja.
Acho até que às vezes este mesmo itinerário era feito
no sentido contrário ou, então, entrando à direita
na praça e passando pela rua da feira. Não importa. Importa
que era tudo muito bonito para que possa ser descrito numa simples crônica.
As velas iam pouco a pouco sendo acesas Meus pensamentos passeiam ora
pela procissão que se iniciava à minha frente, ora pelas
procissões de minha cidade... pelas procissões da minha
infância. E eu comecei a achar falta de mais uma importante presença.
Não era somente a banda musical que estava faltando. Faltavam,
também, as moças de branco que completavam as minhas procissões.
Procuro por todos os lados e definitivamente não as encontro. Um
amigo me disse que elas não existem mais...
Um hino começa a ser cantado. Triste, porém bonito. Quase
que um lamento. Na procissão da minha lembrança também
começa um hino. Triste, igualmente. Igualmente bonito. E um mosaico
de imagens se forma em minha mente. Andores, velas, cânticos, banda
musical, ruas de paralelepípedos, a torre da igreja, multidão...
Verônica, Santo Sudário, Jacyra, Claudete, Léa, Neide,
Zilda... Onde estão as Filhas de Maria?
Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)
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