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Tina Glória
Há quanto tempo estamos acostumados a ouvir infindáveis
denominações dirigidas a crianças e adolescentes
como fulano não gosta de criança ou adolescente"
ou ainda "aborrecente, como se fossem seres humanos à
parte da sociedade.
Quando se fala da família como instituição
sagrada, se esquece que grande parte das degenerações
dos jovens e crianças que acusamos foram originadas neste seio
imaculado... e o quanto é difícil admitir isto.
Uma criança que sofre agressão física, sexual, psicológica,
negligência em casa, é um estopim aceso. Ela precisa de algum
modo extravasar toda a agressão que está sofrendo.
Nenhum motivo pode levar um adulto a agredir uma criança: nem para
a suposta correção educativa, pelo simples fato
de que uma criança é indefesa, frágil: está
em total desvantagem física com um adulto.
As estatísticas que se originam desses corretivos irresponsáveis
são as piores possíveis: pelos dados da Unicef, 64% das
mortes de crianças no Brasil são cometidas por parentes
- pais, padrastos e outros - a agressão contínua pode dar
origem ao homicídio; 34% dos casos acontece dentro da própria
casa; nos casos de ABS (abuso sexual) 70% são cometidos pelos próprios
pais biológicos, padrastos, tios, avós, primos e outros;
89% das agressões são cometidas por pessoas alcoolizadas;
70% dos desaparecimentos de crianças são causados por negligência
dos pais - que deixam filhos pequenos andarem sozinhos nas ruas e proximidades
sem proteção.
As entradas desses casos de violência em hospitais da rede pública
muitas vezes são camufladas por depoimento falsos dos pais, alegando
tombos e acidentes, o que torna difícil um levantamento real e
punição dos culpados.
A infeliz casuística informa que diariamente dão entrada
em hospitais e postos de saúde crianças com edemas traumáticos,
hematomas, devido a surras com cintos, fivela de cinto, fio dobrado, corrente,
corda ou cabide; contusões, ferimentos, cortes na boca, lábios,
tronco, nádegas, escoriações por pancadas com objetos
pesados; áreas de calvície, por arrancamento de mechas de
cabelo, olho roxo, fraturas dos ossos, nariz, escoriaçlões
da mucosa oral, com arrancamento de peça dentária por introdução
de colher para forçar a criança a comer; escoriações
no pescoço por tentativa de esganadura, queimaduras por cigarro,
charuto, agentes químicos, distenção do estômago,
duodeno, fígado causados por chutes, socos, sobre a parede abdominal;
fratura da bacia por lançamento contra a parede; incalculáveis
seqüelas emocionais.
Agora, violência contra crianças cometida por familiares
ou qualquer adulto que tenha estabelecido laço afetivo ou parentesco
por afinidade, é crime pela Lei 2654/03, que proíbe qualquer
forma de castigo físico em crianças e adolescentes, e sujeitará
aos pais infratores encaminhamento a programa oficial de proteção
à família e punição de acordo com o tipo da
infração. Um projeto de lei está sendo encaminhado
ainda para inclusão na lei dos crimes hediondos o abuso incestuoso
e exploração sexual de menores, além da proposta
para alteração do Código Penal a tipificação
de abuso incestuoso, ou seja, agravante para casos de abuso sexual contra
membros da mesma familia.
Educar pela violência é uma abominação, tendo
em vista a infinita capacidade de pensar, de racionar de que qualquer
ser humano normal dispõe, para buscar outras formas de lidar com
os filhos.
Tina Glória é artista plástica e desenhista
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