PELO TELEFONE

Hoje, diferentemente de algum tempo atrás, só não se comunica quem não quer. Distância deixou de ser problema. Vai longe, pelo menos nas civilizações modernas, o tempo dos mensageiros. Daquela figura a cavalo, de barco ou a pé que percorria muitas léguas para dar um recado.
Falar com alguém que esteja do outro lado do mundo ou a caminho da lua virou brincadeira de criança. Criança que, aliás, até ontem mesmo, se maravilhava ao ouvir a voz sendo transmitida de uma latinha de maça tomate para outra, através de um pedaço de barbante. Que se encantava com os sinais de fumaça dos índios dos faroestes americanos. Que trocava bilhetinhos apaixonados e escondidos dos olhares dos adultos. Criança que, depois de grande, fazia da carta o seu principal veículo de comunicação à distância. Naquele tempo, o carteiro entregava cartas e telegramas. Não havia, pelo menos que eu me lembre, cobranças e contas a pagar. Por isso, talvez, ele era tão esperado.
O telefone veio para ocupar um pedaço considerável desse espaço. Antes, artigo de luxo, aos poucos foi se tornando acessível e necessário.
Cada casa um aparelho; cada esquina um orelhão; cada orelha um telefone. Passou a fazer as vezes, não só da correspondência escrita, como também contribuiu para diminuir as reuniões de família e os encontro de amigos. Bateu a saudade? Não tem problema. Um telefonema resolve!
E o que dizer, então, da chegada do telefone móvel? Do imprescindível e inseparável celular. Mais amigo do que o nosso melhor amigo. A diferença está, apenas, em que o amigo de verdade não falha. Do celular já não posso dizer o mesmo. Sem crédito, fora da área de serviço, bloqueado por falta de pagamento e clonado. Resumindo: mudo.
Eu tenho um desses. Atualmente clonado e mudo. O coitado já está nessa situação há tanto tempo que ando preocupado com a possibilidade de que ele desaprenda a falar. Dizem que a culpa é da companhia telefônica. Qual? Não adianta insistir que não vou revelar o nome da operadora. Não quero fazer propaganda e muito menos criar prevenções. Posso apenas garantir que vivo com problemas com meu celular. Isso mesmo, vivo com problemas.
O que interessa agora, no entanto, é o telefone e não seu irmão mais novo, o celular. Que é facilmente bloqueado pela falta de crédito, clonado e barrado pelos detectores das portas dos bancos, mas que corre livre, solto e funcionando em situações outras em que deveria estar do lado de fora, mudo e calado.
Portanto, retomando o assunto principal, permitam-me brindá-los com o trecho de um texto que recebi do Dr Cid e que se reporta aos anos quarenta ou cinqüenta, calculo:
“Itapevi era então um vilarejo, com suas poucas ruas de terra batida, tão perto da ‘civilização’. Tinha apenas um telefone, que era público, e funcionava à manivela – quando funcionava – instalado no Armazém de Seu Constantino”.
E desse armazém eu me lembro. Só não tenho certeza de sua localização exata. Ficava na praça perto da estação. Não sei se na esquina da rua principal com a rua da igreja ou à beira do rio, próximo à ponte de madeira. Mas não faz mal. O que importa é que nele estava instalado o primeiro e, à época, único telefone da nossa cidade.


Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayco@superig.com.br)