Viver é um ato de extrema responsabilidade

Geraldo Pereira

Edemar Cid Ferreira é o seu nome. Não sei onde nasceu. Se veio de berço de ouro ou se constituiu sua imensa fortuna dando duro. Se bem que, realmente, dando duro ninguém consegue uma fortuna como a de Edemar.
A televisão e os jornais exploraram tanto que foi possível as cenas de sua prisão. As algemas colocadas nos seus pulsos, foi um espetáculo horrível que tive por alguns instantes diante dos meus olhos, assistindo ao jornal da TV Gazeta. Tenho uma simpatia pela seriedade da apresentadora deste jornal, sempre com uma belíssima impostação de afinada, de maneira gostosa com o texto.
Edemar é levado à prisão da Polícia Federal. Para trás ficaram os filhos e a esposa, esta também numa situação dificílima e poderá passar pelos mesmos sofrimentos pelos quais passa o esposo. No outro dia, o filho vai à sede da polícia, mas não consegue falar com o pai. Deixa-lhe algumas roupas, comida e água mineral.
É domingo, os advogados de Edemar, também não conseguem falar-lhe, se entrevistaram apenas com o delegado de plantão.
Imagino o que se passa na cabeça do Edemar, preso numa sala de 4 metros. Ele está sozinho. Possuidor de curso superior, tem direito à prisão especial (essa excrescência sem limites, um desrespeito à Constituição: "Todos são iguais perante a Lei").
O domingo é de expectativa, a qualquer momento a desembargadora Ana Maria Pimentel, do Tribunal Regional Federal, pode decidir se concede ou não o Hábeas Corpus impetrado pelo advogado de Edemar, Arnaldo Malheiro Filho.
Na madrugada da segunda-feira, a notícia triste para Edemar. A desembargadora negou o Hábeas Corpus. Ele continuará preso e, o que é pior, seria levado para o presídio em Guarulhos. Ficará por 15 dias, no regime de observação, no CDP. Ele poderá ter companhia na cela, de outro preso. Após esses 15 dias, caso Edemar não consiga um outro Hábeas Corpus impetrado, ele irá para uma cela comum. No presídio onde se encontra, a capacidade é para 768 detentos, mas abriga 1165 - um barril de pólvora!
Perguntará o leitor, mas o que isso tem a ver com a luta sindical e com a nossa coluna? Sinceramente não saberia responder, mas não me nego a fazer um comentário:
Deus deu ao animal-homem o que não deu aos demais. O homem foi o único animal a quem o nosso Pai presenteou com o direito da percepção. Percepção para quê? Para que ele pudesse destingüir entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira.
Mas, o animal-homem, egoísta, vaidoso, insaciável na sua fome de poder - poder material - e, para tê-lo, ele é capaz de tudo. Esquece o Criador, Seu exemplo. Suas lições de humanismo, sua doação a serviço dos mais necessitados e dos mais humildes. Pisa nos seus semelhantes, seu objetivo é superar o concorrente, em alguns casos não por necessidade, mas por uma fraqueza alimentada pelo ambiente em que ele vive, pelo regime que não lhe deixa ter uma visão humana. Seu coração, sua mente está voltada para os negócios.
A luta é diária, até mesmo na hora de recompor as forças perdidas durante o dia, ele está pensando em como ganhar aquele negócio, não importando se é lícito ou não. Se todos do seu meio pensam assim, por que ele vai pensar o contrário?
A casa de Edemar tem 5 mil metros quadrados. Ele gosta de arte. Na casa, grandes obras se fazem presentes. A residência é um imenso muses, é qualquer coisa de inimaginável.
Edemar está preso, e sua casa terá um destino bem melhor do que o dele. Ela, segundo os jornais, abrigará um museu, será uma casa de artes, não só dele, mas de todos os que têm bom gosto e sensibilidade para com o belo.
Viver é um ato de extrema responsabilidade, muito embora o sistema trabalhe o homem e o molde para servi-lo. O que leva um homem riquíssimo, como o Edemar, dono de uma fortuna incaculável, se encontrar hoje nessa deplorável situação, metido numa cela, passando certamente por uma provação que ele jamais poderia imaginar?
A situação do banqueiro é complicadíssima, pois o STJ (Superior Tribunal de Justiça) também lhe negou o Hábeas Corpus. Agora, só resta Edear Cid Ferreia aprendeu como ganhar dinheiro, tornou-se um mestre no seu negócio, mas esqueceu da responsabilidade do ato de viver. Está pagando caro por esse esquecimento!

Geraldo Pereira é jornalista e membro do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo e da ABI (Assoc. Bras. de Imprensa)