Prá não dizer que não falei das flores

Não é de hoje que escrevo crônicas. Graças à paciência dos editores e à tolerância dos leitores. Já falei de tudo um pouco. Na maioria das vezes, tendo como cenário o meu bairro, a minha cidade. Como personagens, meus amigos, familiares e conhecidos.
Raras vezes, falo dos tempos de hoje. Meus artigos falam de tempos idos. Tempos que deixaram saudades. De coisas antigas, sem precisar a idade. Aliás, uma vez perguntei ao nosso amigo, Elioenai, o que poderia ser considerado uma foto antiga e ele me respondeu: “É aquela que retrata fatos que já começaram a fugir sorrateiramente da nossa lembrança. E, numa virada de olhos, sumiu...” E eu complementaria: ...deixando saudades.
Falo dos amigos de infância, amigos do futebol, das batucadas, dos bailinhos e das quermesses. Amigos de todas as horas. Um pouco de cada vez. Ao longo do tempo, falei de todos ou da maioria de meus amigos. Todos homens. Machos. Muito machos.
Um dia, fui parado na rua por algumas amigas. Perguntaram por que eu só falo dos homens e deixo de lado as mulheres. Não que duvidassem de alguma coisa, espero. Apenas curiosidade e, sutilmente, uma queixa.
Na hora fiquei sem resposta, pois nunca havia pensado nisso. Depois, concluí, que me falta habilidade para falar de ou sobre mulheres. É um campo perigoso. Se falamos bem, elogiamos, podemos ser mal interpretados, provocar ciúmes. Se fingimos indiferença, corremos o risco de ser injustos. Se falamos mal, sabe-se lá o que pode acontecer.
Por isso, eu, com certeza, tenha preferido falar apenas dos amigos homens. Pelo medo de errar ao falar de mulheres. E olha que tive muitas colegas. De infância, Beth, Diva, Luci, Marta, Terezinha... Mais tarde, na fase escolar, Cidinha, Dione, Esdra, Neusa, Sônia, Vilma... Na época das matines, Irene, Leninha, Pitucha... Início da adolescência, Bernardina, Edna, Fátima, Guiomar, Ivone, Maria Clara, Maria Emília, Maura, Mercedes, Nanci, Neide, Sueli, Venina...
Depois vieram os bailinhos. E com eles, novas amizades. Ângela, Dalva, Deodéa, Eva, Ifigênia, Jandira, Lucy, Mariazinha, Nair, Nice, Zenaide... Se observarem, estou mantendo os nomes em ordem alfabética. Não quero correr nenhum risco. Essa é a única classificação que ouso fazer.
Aí, veio o colégio. Cida, Claudete, Érica, Lídia, Lindinava, Nilsa, Soninha...
E, finalmente, chega a hora de falar das namoradas. Mas não dá tempo. Acabou o espaço reservado para minha coluna. Uma outra oportunidade, talvez. O importante é que tentei falar um pouco dessas mulheres maravilhosas. Esqueci alguns nomes. Com certeza vou ser cobrado. Mas não se ofendam, é a memória que anda fraca. Aceitem, todas, minha homenagem pelo Dia das Mulheres. Aceitem, também, minhas desculpas, por demorar tanto para falar de vocês.

Ayrton Corrêa é aposentado e reside em São Paulo.
Morou 30 anos em Itapevi (ayrtoncor@superig.com.br)